Cuidando de quem cuida: aprendizagem e/ou prazer?

“O que ela era, era apenas uma pequena parte de si mesma. Sua alma incomensurável. Pois ela era o Mundo. E no entanto vivia o pouco. Isso constituía uma de suas fontes de humildade e forçada aceitação, e também a enfraquecia diante de qualquer possibilidade de agir.”

(…) medir uma alma, fortalecer, enfraquecer, empoderar para ação: como cuidar de quem cuida pra este este possa viver sua humanidade e de novo cuidar? O trabalho em saúde em alguns lugares parece que tem feito os cuidadores- profissionais de saúde – sofrerem…e muito. A gente vê e pode sentir também…

Estresse, ansiedade e depressão, síndrome de burn-out, conflitos institucionais e por aí vai estão cada vez mais nas pautas dos gestores em saúde.

O que a ciência pode dizer sobre isso?

Hoje li um estudo onde as evidências científicas sobre o impacto do aprendizado on-line da gestão de situações de estresse no trabalho em saúde.

O estudo é sobre o impacto de intervenção chamada Anderson Peak Performance nas ações de gestores no manejo de mudanças, controle, demandas, relacionamentos, papéis e apoio nas instituições (http://www. andersonpeakperformance.co.uk). Trata-se de um programa psicossocial para apoiar gestores na identificação de fontes de estresse. Essa ferramenta usa a integralidade como referência e busca melhorar a capacidade dos gestores em ajudar proativamente os profissionais a dialogar com situações procurando soluções possíveis.

Embora o programa de educação à distância desenhado tenha ajudado na educação dos gestores, o estudo observou que este não fora o suficiente para criar um ambiente protegido para os trabalhadores e reduzir o adoecimento por circunstâncias estressantes.

A pesquisa aponta que, embora esse tipo de ação seja importante, ela é insuficiente e sugere pesquisas futuras sobre este aspecto incluindo aspectos motivacionais, reflexões e mudança de comportamento.

Me lembrou Pavlov :). O que pode motivar um profissional vivendo situações de estresse no trabalho?

E se a fonte identificada for o trabalho em si ? Medalhas, fotos curtidas, diplomas, motivações financeiras e de segurança no trabalho são ítens possíveis de serem considerados, claro! Por que não, né?

E os aspectos relacionais?

O estudo Britânico me fez pensar em equipes de saúde atuando em situações de estresse e violência crônica ou em cenários de guerra, como acontece por aqui no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro.

Assim, se por um lado essa experiência da pesquisa lida elenca diversos itens que merecem ser conhecidos pelos gestores em saúde como forma de avaliar processos nos seus ambientes de trabalho, por outro ele nos lembra de algo pautado pela experiência prática dos grupos e pesquisas que vem acontecendo por aqui.

Nestes, a tônica tem sido a de alinhar o conhecimento produzido e aprendido às relações afetivas e alianças de trabalho entendendo os profissionais como stakeholders. (palavra que incorpora a função técnica dos profissionais envolvidos em processos organizacionais uma função política, onde a intenção, necessidades e desejos existem). Minha opinião é que é urgente dar visibilidade a isso. Mas como?

O inconsciente maquínico e desejante de Felix Guatarri e Gilles Deleuze pode ajudar a pensar ou des-pensar os conceitos envolvidos nesses encontros.

“Dadas as sínteses do inconsciente, o problema prático é o do seu uso, legítimo ou não, e das condições que definem um uso de síntese como legítimo ou ilegítimo” – D&G, Anti-Édipo, p. 95 ”

Não sei dizer nada muito bem disso, apenas que o desejo e a razão nem sempre ou quase nunca são como exatamente se espera.

Talvez o vetor estresse que se encontra no cuidado a pessoas que vivem em situações violentas possa ser reduzido pela compreensão em fazer um trabalho reconhecidamente importante, humano e pleno de afetos a serem desvelados: sugestão como primeiro passo.

Obrigada pela leitura!

 

Referências:

Pilot study of a cluster randomised trial of a guided e-learning health promotion intervention for managers based on management standards for the improvement of employee well-being and reduction of sickness absence: GEM Study

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

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créditos da imagem de ilustração do post

 

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Publicado por

Karen Karenina

Psicóloga, especialista em Psicologia Oncológica- INCa, especialista em Psicologia Médica - UERJ, Mestre em Estudos Femininos- Paris8, Doutora em Ciências - Faculdade de Ciências Médicas-UERJ, Membro do Comitê Moviment for Global Mental Health/ MGMH

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