Privacidade, acesso ao cuidado em saúde mental e internet: desafios da atualidade

Tradicionalmente a saúde mental, psicologia, psicanálise e afins são ofertas de cuidado emocional (sendo bem abrangente) que prescindem metodologicamente de uma relação protegida do ponto de vista ético (e isso é bem específico). Essa relação estabelecida entre quem cuida e é cuidado é estrutural para o campo de atuação de profissionais dessa área.

Em tempos de registros compartilhados e de redes de comunicação on-line sendo incorporados na vida cotidiana, quais os desafios que os profissionais que exercem essa prática de cuidado emocional (com base na experiência relacional) têm enfrentado?

Ontem, conversando com uma amiga psicóloga que atua na França, ela me conta que seus registros podem ser modificados. Isso nos assusta. Trocamos algumas palavras sobre a relação entre clínica e política institucional. Concordamos que registro em um sistema compartilhado necessitada de proteção além da relação cuidador-cuidado. Os registros genéricos, sem dados específicos sobre a história do paciente podem ser importantes para os membros da equipe trabalharem de forma coerente, por exemplo. O que significa, que nada substitui uma “boa”  conversa entre profissionais (a interconsulta e a discussão de caso). Da conversa, duas perguntas:

Qual a complexidade disso em populações vulneráveis emocionalmente?

Que ações são importantes para salvaguardar a relação de confiança entre o profissional de saúde mental e o paciente ( cliente, usuário, pessoa, sujeito, indivíduo…) bem como as relações institucionais desse universo ( o estabelecimento público, e os profissionais que tem acesso aos registros realizados)?

Difícil responder, assim, … de imediato. De qualquer modo as respostas podem ser encontradas nos acordos com base em recomendações técnicas, conceituais e até mesmo institucionais…precisamos pensar e buscar evidências, especialmente na opinião de quem cuidamos. Nessas horas gosto de me colocar no lugar de quem recebe o cuidado. Assim, penso que se eu estivesse sendo cuidada por um profissional de saúde mental de uma instituição e soubesse que o que eu compartilho com ele é amplamente registrado em lugar comum a vários profissionais, e que eu não conheço, acho que não ficaria muito feliz. Por outro lado se o meu cuidador deixasse bem claro o porque disso, como e com que intenção não me importaria.

Pois bem, …isso foi ontem…

Hoje, recebi um estudo que aponta o interesse de pacientes, identificados como usuários de mídias sociais,  na e-comunicação com seus cuidadores.

Embora o estudo tenha identificado o baixo uso de comunicação pela internet entre pacientes e profissionais de saúde mental, parece que alguns destes pacientes entrevistados têm grande interesse nessa forma de comunicação com fins de compartilhar atualizações, ter feedbacks, coordenar o cuidado com outras ações pessoais, além de obter informações gerais. Para parte do grupo a e-comunicação poderia facilitar o acesso ao cuidado, mesmo que os mesmos tenham preocupações relativas a privacidade e a perda de contato pessoal com quem prove cuidado. (contrapontos importantes)

As barreiras não excluem a possibilidade de se pensar na relação entre a comunicação online e a integração com os serviços de cuidado ambulatoriais, aponta o estudo, que também alerta para a importância de se considerar aqueles que desejam ou não o acesso aos serviços de natureza online.

Hoje, depois de me lembrar da conversa (…) e fazer a leitura, a associação entre as ideias de privacidade, acesso ao cuidado em saúde mental, internet queimou feito batata quente na minha mão.

Obrigada pela leitura!

Referências:

Barriers to Office-Based Mental Health Care and Interest in E-Communication With Providers: A Survey Study

Figura: JMIR-E-collection ‘Ethics, Privacy, and Legal Issues’

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