Trabalho colaborativo e integrado: desafios que o NASF traz para o SUS

…uns pares de anos atrás, em um curso com um professor espanhol de Zaragoza, sobre, acho que, metodologia de pesquisa qualitativa, estávamos discutindo a portaria que criou os Núcleos de Apoio à Saúde da Família.

A ideia ali era pensarmos juntos na proposta normativa que incluía na linguagem do SUS alguma coisa nova, começando pela inclusão da palavra-ideia: trabalho em colaboração.

Referência e contra-referência como modalidades de encaminhamento e de apoio na ligação entre diferentes níveis de atuação do sistema de saúde passaram a ser acompanhadas dessa nova referência.

Pois é, …

Naquela conversa que eu não me lembro quando e nem direito porque eu estava presente, esse professor que eu não me lembro o nome me fez uma pergunta que me motivou a fazer o doutorado:

Qual o impacto do NASF ( da inclusão de práticas colaborativas que integram diferentes profissões) no SUS que vinha sendo organizado por práticas de encaminhamento entre diferentes profissionais atuando em diferentes níveis de complexidade (e com muito pouca comunicação entre os mesmos)???

A pergunta é grande, mas é assim mesmo, e eu acho que ainda não consigo responder…enfim…

Desde aquele tempo muitas coisas se passaram… e os NASF cresceram em cobertura e em desenvolvimento de ações cada vez mais qualificadas.

Hoje, em razão de uma das disciplinas do tal doutorado tive que reler 2 importantes documentos de orientação para a prática das equipes dos novos, já nem tão novos, serviços NASF.

O Caderno de Atenção Básica (n.27), criado dois anos depois da portaria dá as diretrizes para a constituição e organizaçao das equipes e serviços NASF com o objetivo de apoiar e ampliar a capacidade da Atenção Primária Brasileira resolver problemas no território.

O segundo Caderno de Atenção Básica sobre o assunto ( n. 39), publicado em 2014, avança na discussão. Ele aponta ferramentas para a gestão e trabalho e descreve as linhas de ação do NASF com base em 3 pilares:

  1. retaguarda especializada
  2. clínico-assitencial
  3. técnico pedagógica

As ações tem seus referenciais conceituais alinhados com a atenção primária e visam, em tese, o cuidado continuado, longitudinal, próximo e integral.

De todo modo, através desses anos de estudo e experiência na área através da clínica, pesquisa e discussões técnicas é inegável que o impacto extrapola as organizações de saúde.

O modo NASF de ser parece que propõe uma discussão disciplinar gigantesca. Mudar é muito difícil, a bem pouco tempo a palavra colaborar não fazia parte do vocabulário da força de trabalho em saúde e integrar processos de cuidado é um desafio constante para gestores.

A figura que ilustra esse post talvez possa ajudar na compreensão e complexidade da proposta. Ela avalia considerando componentes diferentes a construção desse processo em um continuum, isto é, é preciso construir essa integração passo a passo tendo em conta as diferenças e necessidades comuns para o benefício dos usuários do sistema.

Obrigada pela visita!

Referências:

Cadernos de Atenção Básica, n. 27 (2010) Diretrizes do NASF: Núcleo de apoio a Saúde da Família

Cadernos de Atenção Básica, n. 39. (2014) NASF: ferramentas para gestão e trabalho

Collaborative Care: Models for Treatment of Patients with Complex Medical-Psychiatric Conditions

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Suicídio e evidências científicas

Foi com base em evidências científicas que decidi essa semana explorar o tema suicídio.

Assino algumas revistas e duas entre elas publicaram artigos sobre o assunto com questões variadas e que podem ser relevantes nas discussões sobre o tema.

Entre as evidências discutidas nos artigos publicados na última edição do Community Mental Health Journal e General Hospital Psychiatry destacarei algumas. Entre elas:

  1. O conhecimento sobre o assunto aumenta a confiança dos profissionais de saúde para intervir em situações de suicídio.
  2. O baixo ou médio conhecimento sobre o assunto indica uma lacuna nesse tipo de qualificação, bem como a necessidade urgente do desenvolvimento de competências específicas pra o acolhimento de casos de suicídio, especialmente em profissionais da atenção primária.
  3. Vulnerabilidade social associada a preocupações com sua alimentação e a sensação de não pertencimento a nenhum grupo são fatores de risco para o suicídio nas comunidades estudadas. Intervenções sociais e econômicas são recomendadas como modo de prevenir o suicídio.
  4. A exigência de performance escolar universitária e sua relação com o suicídio pode diminuir se o campus universitário integrar atividades físicas, mentais e acadêmicas.
  5.  A ideação suicida pode se apresentar como passiva em comunidades com alta prevalência de HIV, todavia nas pessoas portadoras da doença que participam em atividades comunitárias esse pensamento, mesmo que passivo, é menos observado.
  6. 2/3 das pessoas que perderam um ente querido buscam terapias de apoio. Considerar aspectos fenomenológicos especialmente relacionados ao Estresse pós-traumático se revelou importante nesse estudo para o melhor delineamento da condução dos tratamentos de luto com sucesso e alívio para quem sofreu uma perda por suicídio.
  7. O risco de suicídio em pacientes com co-morbidades mentais é maior, aponta em estudo realizado na Coréia.
  8. O suporte familiar que favorece a comunicação entre pais e filhos como foco do cuidado fortalece o relacionamento familiar e pode previnir o suicídio de adolescentes.
  9. O uso do álcool e outras drogas pode facilitar a passagem entre uma ideação suicida a um comportamento.
  10. Pode haver uma relação causal entre questões de gênero, ocupação e suicídio.

É muita coisa junta e diferente. Entretanto a gente pode perceber, apenas fazendo um leitura dos assuntos, a relevância e urgência da discussão para os profissionais de saúde.

A busca de evidências aponta para a questão do suicídio como um processo multifatorial e complexo onde o cuidado exige habilidades de leitura do comportamento humano, bem como habilidades de comunicação/ intervenção que favoreçam a mudança de percepção ou dúvida ideacional por parte de quem vive esse processo.

Não se trata de uma tarefa simples nem objetiva substituir algo da ordem do sofrimento intolerável por esperança e um impulso de vida em busca de soluções. De todo modo precisamos estar preparados para isso e ativar os recursos possíveis para tal como a construção de redes, campanhas anti-estigma, bem como o uso de intervenções psicológicas individuais, comunitárias e o uso medicações apropriadas.

Obrigada pela leitura!

Referências:

a imagem que ilustra esse post é de um veterano artista de rua britânico chamado Banksy cujos trabalhos em estêncil são facilmente encontrados nas ruas da cidade de Bristol, mas também em Londres e em várias cidades do mundo.

E os artigos estão nas edições de Julho de 2016 dos Jornais com links abaixo:

http://www.journals.elsevier.com/general-hospital-psychiatry

http://link.springer.com/journal/10597

 

Como reconhecer sinais que podem indicar Suicídio?

Esse é mais um post sobre o tema suicídio… Achei que seria útil indicar aos leitores interessados no problema como entender os sinais de situações de suicídio e como proceder nesses casos.

Por isso linkei uma matéria que eu achei interessante com apontamentos importantes para a identificação da intenção de suicídio.

Ela é bem clara e traz recomendações para:

profissionais,

familiares, amigos

e também diz o que fazer se você perceber que este pensamento o acompanha.

http://pt.wikihow.com/Reconhecer-os-Sinais-de-Alerta-do-Suic%C3%ADdio

…Mais do que isso, o artigo aponta quando e onde procurar ajuda.

Quando se deve procurar um profissional para o cuidado de situações que envolvem a questão do suicídio ?

…assim como onde, em situação de emergência, é possível se reportar procurando apoio?

Vale lembrar aqui o papel que o Centro de Valorização da Vida tem tido como instituição disponível e aberta 24/24 para esse tipo de apoio. Por isso, sugiro uma visita ao site dessa instituição (http://www.cvv.org.br) onde é possível encontrar um número de telefone 141 para pedido de ajuda, chat online e Skype.

Também anexei um videozinho rápido (1:30) com um especialista mencionando os sinais que indicam alerta para o suicídio:

O segundo vídeo é uma campanha publicitária premiada cujo o tema é suicídio. A campanha se passe em Belgrado, capital Sérvia, e revela o aumento da busca de ajuda telefônica quando preciso a partir de ações realizadas na cidade. A campanha mostra como os Sérvios investiram na ressignificação do local onde um número importante de suicídios costumava ocorrer.

O mais legal da campanha na minha opinião é que ela alerta para a reativação de sentimentos de ESPERANÇA. Isto é, saber que não se está sozinho e que soluções sempre são possíveis, mesmo que não sejam as ideais.

Obrigada pela visita!

Suicídio no Brasil

O video que inspirou esse post foi criado pelo grupo de pesquisa e prevenção do Suicídio da Fiocruz.

Nele as pessoas falam de suas impressões sobre o suicídio e o Professor Neury Botega comenta importantes questões a respeito do tema como:

  • De que forma a questão nos faz repensar o sentido da vida?
  • Que tabus sociais tem sido enfrentados nos últimos anos?
  • Aspectos de saúde mental
  • E qual o retrato do Brasil quando se trata desse assunto.

Os mais comuns, segundo ele, estão na ordem colocada abaixo:

  1. enforcamento
  2. agrotóxicos
  3. ferimentos por arma de fogo
  4. arremeter-se contra veículos
  5. e se jogar de locais altos

 

 

Além desses comentários outros muito esclarecedores sobre o pano de fundo da questão em si estão colocados no vídeo… Vale a pena assistir pois trata de aspectos da realidade Brasileira apontando o papel das questões sociais e ligadas ao desenvolvimento humano nos dias atuais.

Por fim, a figura que ilustra esse post coloca o problema em números e por Estados do Brasil!

Obrigada pela visita!

Campanha Mundial de Prevenção do Suicídio #2016

A organização Mundial de Saúde estima que mais de  800,000 pessoas morrem de suicídio por ano. O que significa 1 pessoa a cada 40 segundos. O panorama revela que muitas pessoas vivem o luto por essa circunstância, assim como muitas lutam para controlar a ideação ou seus impulsos suicidas.

Além disso, studiosos do assunto consideram a situação possível de se prevenir em 85% das situações. E ainda nem sempre um suicídio bem sucedido é uma primeira tentativa.

Neste sentido a Associação Internacional de Prevenção do Suicídio vem trabalhando para a divulgação de ações baseadas em 3 aspectos :

CONECTAR : entendendo que as relações sociais e de afeto são protetoras essa ação sugere a troca mútua entre indivíduos, grupos e instituições para a construção de uma rede que favoreça o alerta da questão e o reconhecimento dos sinais que precedem o suicídio.  

COMUNICAR: o silêncio e a solidão normalmente estão relacionados com o suicídio. Discussões que promovam a reflexão sobre o assunto e o desenvolvimento de uma comunicação onde a compaixão e o cuidado emocional sejam parte o conteúdo tem sido uma das ações elencadas como eficazes para a prevenção do suicídio. 

CUIDAR: a referência ao cuidado aponta para a necessidade de planejamento e de políticas públicas que entendam a questão como algo a ser cuidado. Por exemplo: a educação para esse cuidado de profissionais em contato com populações vulneráveis é um aspecto estratégico para a prevenção.  

Além disso são sugeridas ações como passeios coletivos de bicicleta, bem como acender uma vela às 8 horas da noite para marcar o dia 10 de setembro. Veja abaixo as logomarcas das campanhas sugeridas:

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De todo modo, a questão do suicídio vai além da prevenção. Um grupo de problemas em torno do assunto a serem listados aqui têm sido estudados e discutidos como ações clínicas, institucionais e políticas relevantes quando se trata do tema. Entre eles estão:

  1. Grupos e comportamento suicida
  2. Cultura e comportamento suicida
  3. Emergência médica e comportamento suicida
  4. Prevenção da intenção de envenenamento
  5. Comportamento suicida na adolescencia
  6. Comportamento suicida na idade adulta
  7. Luto pelo suicídio
  8. Suicídio e Mídia

No Brasil,  o Centro de Valorização da Vida tem sido um instituição importante no alerta da questão e do cuidado disso. Por exemplo, está lançando junto ao facebook uma ferramenta de prevenção ao suicídio.

O que você pensa disso? Já teve alguma experiência relacionada?

Obrigada pela leitura!

Referências:

http://wspd.org.au

https://iasp.info/wspd/pdf/2016/2016_wspd_brochure.pdf

http://g1.globo.com/economia/midia-e-marketing/noticia/2014/06/campanha-que-reescreveu-cartas-de-suicidas-ganha-ouro-em-cannes.html ( a imagem da chamada fez parte de uma campanha premiada no Festival de Cannes em 2014. Leia a matéria)

Matriciamento em Saúde Mental na Atenção Primária

Dois anos atrás fiz uma revisão crítica de artigos escritos em língua portuguesa sobre os processo de integração e cuidado de saúde mental e atenção primária. Abaixo o link:

https://www.rbmfc.org.br/rbmfc/article/view/536/530

A revisão apontou para 3 diferentes modos de olhar a integração dos processos de trabalho.

O primeiro é o olhar do profissional de saúde mental que é atravessado pela história da psiquiatria e da reforma psiquiátrica brasileira.

O segundo é o olhar do não especialista trabalhando em serviços de atenção primária localizados nas comunidades. Esse olhar apresenta problemas que batem a sua porta e buscam respostas para favorecer esse cuidado.

E o terceiro olhar é o dos profissionais que vivem essa integração na prática de matriciamento.

O que será que mudou depois de dois anos de publicação realizada; 8 da publicação da Portaria que inclui no SUS a ideia do trabalho em colaboração e de 6 anos de novas publicações e experiências?

 

 

 

Ações de cuidado emocional não são só do especialista!

Quando se fala em problemas psicológicos ou alguma situação de saúde mental é muito comum que a primeira ideia que venha a cabeça é a de procurar um especialista. Claro que isso pode ser importante e coerente com a necessidade. Entretanto também é possível observar que existe um espaço de tempo e de ações até que essa busca ocorra.

Os fatores são diversos:

  1. estigma do sofrimento mental
  2. desconhecimento de um profissional de confiança
  3. minimização dos sentimentos
  4. rotina complicada e que dificulta o acesso
  5. dificuldade de acesso seja no sistema público ou privado.

Por outro lado, é importante dizer que o cuidado emocional não é privilégio de especialistas. Ele ocorre nas relações familiares, cotidianas, entre amigos entre outros. Ele também pode ser realizado por profissionais de saúde que não sejam especialistas.

Separei quatro exemplos de cuidado onde não especialistas estão envolvidos no processo de cuidado. No site comunidade de práticas cujo cenário principal é a atenção básica, outros profissionais sensibilizados com os problemas comunitários de ordem psicossocial tem atuado nesse cuidado.

  1. Grupo de mulheres, Chá das superpoderosas

https://novo.atencaobasica.org.br/relato/4239

2. Maternidade Assistida de pacientes com problemas graves de saúde mental https://novo.atencaobasica.org.br/relato/560

3. Atendimento conjunto de paciente vivendo em situação de isolamento Quando a compaixão supera o medo https://novo.atencaobasica.org.br/relato/2506

4. E Jornal Folha de Lírio espaço virtual criado por um usuário do CAPS. https://novo.atencaobasica.org.br/relato/2380

Assim como os exemplos são diferentes também apontam para soluções distintas do cuidado emocional sem a presença exclusiva de um profissional de saúde mental.

O que você acha disso?