Adolescência, violência e depressão

Gosto muito de ler a revista científica Community Mental Health Journal. Na última saiu um estudo que me chamou a atenção considerando a construção e oferta de serviços de saúde mental atual. O nome é:

Longitudinal Trajectory of Adolescent Exposure to Community Violence and Depressive Symptoms Among Adolescents and Young Adults: Understanding the Effect of Mental Health Service Usage

Trata-se de uma pesquisa que diferencia a relação direta e indireta entre a experiência da violência na juventude e sua associação com problemas de saúde mental e o uso de serviços de saúde mental.

3 questões norteiam o estudo:

  1. se a vivencia de situações violentas se associa a sintomas depressivos;
  2. se a vivencia de situações violentas onde o adolescente é vitimizado se associa com o uso dos serviços de saúde mental
  3. se o papel dos serviços de saúde mental têm sido atenuar os sintomas provenientes dessas situações.

As repostas para essas perguntas foram:

  1. adolescentes que testemunham situações de violência tendem a apresentar sintomas depressivos na adolescência mais do que como jovens adultos;
  2. A exposição direta a violência na adolescência  não prediz sintomas depressivos nesta fase, mas os mesmos tendem a ocorrer na vida adulta;
  3. O uso de serviços de saúde mental pode ser protetor de sintomas depressivos para adolescentes que vivem em comunidades violentas.

Ainda não li o estudo todo! Ainda… ele não está disponível.

Mas achei que ele apresenta questões que podem ajudar a repensar soluções mágicas para problemas complexos.

Que é difícil ver com os olhos os resultados da aposta do cuidado em saúde mental nós já sabemos. De todo modo, a perspectiva do não fazer ou a de não olhar para a necessidade dos casos de crianças e jovens que hoje vivem em situação de vulnerabilidade psicossocial com a presença de violência pode ser considerada catastrófica.

Obrigada pela visita e boa leitura!

Karen

foto: http://www.ismai.pt/pt/PublishingImages/Imagens_Ext/Violencia_Adolescentes70928853.jpg?RenditionID=15

 

 

Anúncios

Dia Mundial da Saúde Mental #WMHD

Hoje é dia mundial da saúde mental! Quem nunca sofreu, se sentiu angustiado ou teve medo?! A campanha é pela dignidade e equidade no cuidado. Não ao estigma e preconceito p.f.v.. Estresse, angústia, sentimentos sombrios podem acontecer com qualquer pessoa. A campanha é pela inclusão dessa escuta e acolhimento.

Leia o artigo escrito pelo presidente da Campanha:

http://www.huffingtonpost.com/entry/world-mental-health-day-monday-10th-october-2016_us_57fa5fa0e4b0d786aa52b5c6

 

Love yourself :) <3

Faz um par de semanas que eu não apareço por aqui. Não por falta de vontade, mas por excesso de preocupação com os rumos do que eu escrevo.

…às vezes isso acontece: a gente quer tanto que paralisa. Já viveu isso também?

Publicar aqui, além de dizer daquilo o que eu amo fazer como profissional de saúde mental e psicologia, que é cuidar, é também escrever: uma paixão que corre paralela a tudo o que eu faço.

Já tive vontade de escrever relatórios em forma de prosa, colar poesia com a metodologia científica de escritos baseados em evidências, e invertar palavras em cartas institucionais. Quem nunca, né?

Todo mundo que trabalha com saúde sabe como o nosso meio pode ser formal, quase rígido. A gente que cuida e lida com vidas parece que tem um pedaço de razão e outro de emoção costurada e que muitas das vezes fica pra depois, pois trabalhamos com evidências. De qualquer jeito a gente sabe, e não tem jeito: tá tudo misturado mesmo.

Nesse ponto eu tenho sorte, pois escolhi uma ciência e profissão que pula das ciências humanas pras ciências médicas muito facilmente: a minha doce psicologia. Amo essa ciência e a construção do seu conhecimento clínico acontece no encontro. Nada melhor do que ouvir a voz e a experiência de quem a gente cuida. Sim … sim… sim…a clínica supera tudo.

Ok! Pra quem já passou por aqui, preciso avisar que hoje eu to dando aqui no blog uma volta de 360 graus, já que os últimos posts trouxe muitas questões relacionadas ao estigma e cuidado em saúde mental considerando o ponto de vista da força de trabalho em saúde, tema central do meu doutorado. Me desculpem, sei que foi de repente!

Por outro lado, esse mesmo doutorado cresceu mesmo (de dentro de mim) foi quando ouvi a narrativa de pessoas em situação de extrema vulnerabilidade com necessidades importantes e desenvolvendo criativamente modos de enfrentamento inesperados do sofrimento emocional.

Assim, nesse post, escrevo inspirada nessas pessoas e em uma moça de coragem que atendi(me encontrei) por esses dias. O encontro com ela me ajudou a retomar uma outra paixão antiga: pessoas que sobrevivem à experiência de doenças onco-hematológicas.

Trabalhar na clínica com oncologia e assim como com outras doenças crônicas também faz parte da minha história. São 13 anos de prática clínica, de muitas alegrias e de de grandiosos encontros onde as emoções se veem diante da perda da saúde (ou do que se acredita que ela deva ser) , mas nunca da esperança.

Motivada por isso tudo achei nas internet algumas coisas bem legais que vou compartilhar nos próximos posts sobre pessoas que vivem a experiência do transplante de medula óssea. Um tratamento com muitas nuances e que aos poucos vou contando o que é…(agora não dá, não quero complicar mais a vida do leitor :))

Assim, pra começar essa jornada sobre a experiência de portadores de câncer, compartilho a página do youtube de uma garotinha inglesa de 12 anos, portadora de cancer onco-hematológico, cheia de graça, senso de humor, esperança e vida.

Com vocês Evie:

Obrigada pela leitura!

Referências:

Canal da Evie no Youtube: https://www.youtube.com/channel/UCj7Rg0VTc9GjT4QDznUrFoQ 

Imagem de abertura do post: http://www.scientific.com.br/wp-content/uploads/2012/10/heart_blood.jpg

 

Cuidando de quem cuida: aprendizagem e/ou prazer?

“O que ela era, era apenas uma pequena parte de si mesma. Sua alma incomensurável. Pois ela era o Mundo. E no entanto vivia o pouco. Isso constituía uma de suas fontes de humildade e forçada aceitação, e também a enfraquecia diante de qualquer possibilidade de agir.”

(…) medir uma alma, fortalecer, enfraquecer, empoderar para ação: como cuidar de quem cuida pra este este possa viver sua humanidade e de novo cuidar? O trabalho em saúde em alguns lugares parece que tem feito os cuidadores- profissionais de saúde – sofrerem…e muito. A gente vê e pode sentir também…

Estresse, ansiedade e depressão, síndrome de burn-out, conflitos institucionais e por aí vai estão cada vez mais nas pautas dos gestores em saúde.

O que a ciência pode dizer sobre isso?

Hoje li um estudo onde as evidências científicas sobre o impacto do aprendizado on-line da gestão de situações de estresse no trabalho em saúde.

O estudo é sobre o impacto de intervenção chamada Anderson Peak Performance nas ações de gestores no manejo de mudanças, controle, demandas, relacionamentos, papéis e apoio nas instituições (http://www. andersonpeakperformance.co.uk). Trata-se de um programa psicossocial para apoiar gestores na identificação de fontes de estresse. Essa ferramenta usa a integralidade como referência e busca melhorar a capacidade dos gestores em ajudar proativamente os profissionais a dialogar com situações procurando soluções possíveis.

Embora o programa de educação à distância desenhado tenha ajudado na educação dos gestores, o estudo observou que este não fora o suficiente para criar um ambiente protegido para os trabalhadores e reduzir o adoecimento por circunstâncias estressantes.

A pesquisa aponta que, embora esse tipo de ação seja importante, ela é insuficiente e sugere pesquisas futuras sobre este aspecto incluindo aspectos motivacionais, reflexões e mudança de comportamento.

Me lembrou Pavlov :). O que pode motivar um profissional vivendo situações de estresse no trabalho?

E se a fonte identificada for o trabalho em si ? Medalhas, fotos curtidas, diplomas, motivações financeiras e de segurança no trabalho são ítens possíveis de serem considerados, claro! Por que não, né?

E os aspectos relacionais?

O estudo Britânico me fez pensar em equipes de saúde atuando em situações de estresse e violência crônica ou em cenários de guerra, como acontece por aqui no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro.

Assim, se por um lado essa experiência da pesquisa lida elenca diversos itens que merecem ser conhecidos pelos gestores em saúde como forma de avaliar processos nos seus ambientes de trabalho, por outro ele nos lembra de algo pautado pela experiência prática dos grupos e pesquisas que vem acontecendo por aqui.

Nestes, a tônica tem sido a de alinhar o conhecimento produzido e aprendido às relações afetivas e alianças de trabalho entendendo os profissionais como stakeholders. (palavra que incorpora a função técnica dos profissionais envolvidos em processos organizacionais uma função política, onde a intenção, necessidades e desejos existem). Minha opinião é que é urgente dar visibilidade a isso. Mas como?

O inconsciente maquínico e desejante de Felix Guatarri e Gilles Deleuze pode ajudar a pensar ou des-pensar os conceitos envolvidos nesses encontros.

“Dadas as sínteses do inconsciente, o problema prático é o do seu uso, legítimo ou não, e das condições que definem um uso de síntese como legítimo ou ilegítimo” – D&G, Anti-Édipo, p. 95 ”

Não sei dizer nada muito bem disso, apenas que o desejo e a razão nem sempre ou quase nunca são como exatamente se espera.

Talvez o vetor estresse que se encontra no cuidado a pessoas que vivem em situações violentas possa ser reduzido pela compreensão em fazer um trabalho reconhecidamente importante, humano e pleno de afetos a serem desvelados: sugestão como primeiro passo.

Obrigada pela leitura!

 

Referências:

Pilot study of a cluster randomised trial of a guided e-learning health promotion intervention for managers based on management standards for the improvement of employee well-being and reduction of sickness absence: GEM Study

Clarice Lispector. Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres.

UMA_APRENDIZAGEM_OU_O_LIVRO_DOS_PRAZERES_1325213801B

créditos da imagem de ilustração do post

 

Privacidade, acesso ao cuidado em saúde mental e internet: desafios da atualidade

Tradicionalmente a saúde mental, psicologia, psicanálise e afins são ofertas de cuidado emocional (sendo bem abrangente) que prescindem metodologicamente de uma relação protegida do ponto de vista ético (e isso é bem específico). Essa relação estabelecida entre quem cuida e é cuidado é estrutural para o campo de atuação de profissionais dessa área.

Em tempos de registros compartilhados e de redes de comunicação on-line sendo incorporados na vida cotidiana, quais os desafios que os profissionais que exercem essa prática de cuidado emocional (com base na experiência relacional) têm enfrentado?

Ontem, conversando com uma amiga psicóloga que atua na França, ela me conta que seus registros podem ser modificados. Isso nos assusta. Trocamos algumas palavras sobre a relação entre clínica e política institucional. Concordamos que registro em um sistema compartilhado necessitada de proteção além da relação cuidador-cuidado. Os registros genéricos, sem dados específicos sobre a história do paciente podem ser importantes para os membros da equipe trabalharem de forma coerente, por exemplo. O que significa, que nada substitui uma “boa”  conversa entre profissionais (a interconsulta e a discussão de caso). Da conversa, duas perguntas:

Qual a complexidade disso em populações vulneráveis emocionalmente?

Que ações são importantes para salvaguardar a relação de confiança entre o profissional de saúde mental e o paciente ( cliente, usuário, pessoa, sujeito, indivíduo…) bem como as relações institucionais desse universo ( o estabelecimento público, e os profissionais que tem acesso aos registros realizados)?

Difícil responder, assim, … de imediato. De qualquer modo as respostas podem ser encontradas nos acordos com base em recomendações técnicas, conceituais e até mesmo institucionais…precisamos pensar e buscar evidências, especialmente na opinião de quem cuidamos. Nessas horas gosto de me colocar no lugar de quem recebe o cuidado. Assim, penso que se eu estivesse sendo cuidada por um profissional de saúde mental de uma instituição e soubesse que o que eu compartilho com ele é amplamente registrado em lugar comum a vários profissionais, e que eu não conheço, acho que não ficaria muito feliz. Por outro lado se o meu cuidador deixasse bem claro o porque disso, como e com que intenção não me importaria.

Pois bem, …isso foi ontem…

Hoje, recebi um estudo que aponta o interesse de pacientes, identificados como usuários de mídias sociais,  na e-comunicação com seus cuidadores.

Embora o estudo tenha identificado o baixo uso de comunicação pela internet entre pacientes e profissionais de saúde mental, parece que alguns destes pacientes entrevistados têm grande interesse nessa forma de comunicação com fins de compartilhar atualizações, ter feedbacks, coordenar o cuidado com outras ações pessoais, além de obter informações gerais. Para parte do grupo a e-comunicação poderia facilitar o acesso ao cuidado, mesmo que os mesmos tenham preocupações relativas a privacidade e a perda de contato pessoal com quem prove cuidado. (contrapontos importantes)

As barreiras não excluem a possibilidade de se pensar na relação entre a comunicação online e a integração com os serviços de cuidado ambulatoriais, aponta o estudo, que também alerta para a importância de se considerar aqueles que desejam ou não o acesso aos serviços de natureza online.

Hoje, depois de me lembrar da conversa (…) e fazer a leitura, a associação entre as ideias de privacidade, acesso ao cuidado em saúde mental, internet queimou feito batata quente na minha mão.

Obrigada pela leitura!

Referências:

Barriers to Office-Based Mental Health Care and Interest in E-Communication With Providers: A Survey Study

Figura: JMIR-E-collection ‘Ethics, Privacy, and Legal Issues’

Na luta contra o estigma do sofrimento mental #WMHD2016

No ultimo mês o Dr. Gabriel Ivbijaro, presidente da Federação Mundial de Saúde Mental e líder do World Dignity Project escreveu dois artigos no http://www.huffingtonpost.com alertando sobre a luta contra o preconceito e estigmas relacionados à saúde mental. A chamada para escuta digna e respeito diante desse sofrimento é um alerta para a importância do cuidado em saúde mental.

A intolerância a este tipo de situação ainda causa, ele alerta, um tratamento com profunda falta de humanidade. Diante disso Ivbijaro convida a todos se tornarem embaixadores da dignidade lembrando que os sintomas de sofrimento não são uma barreira, mas sim as atitudes diante de um expressão de sofrimento psicológico ou mental.

Por isso, a campanha de 2016 do dia Mundial da Saúde Mental mantém o tema da dignidade enfocando sobre os primeiros cuidados psicológicos ou de saúde mental em situações de crise.

Ivbijaro nos lembra da disparidade de oferta de cuidado aos problemas físicos e mentais devido ao preconceito. Neste caso a campanha mundial reforça que atendimentos emergenciais em saúde mental podem ser fundamentais para que alguém em sofrimento se sinta menos vulnerável, amedrontado e seja aceito  socialmente com dignidade.

A partir dessas premissas em 2016 a campanha do dia Mundial de Saúde Mental tem produzido material educacional com exemplos de como proceder em casos de crise em diversas situações. ( veja o site: www.wfmh.org).

Obrigada pela leitura!

Referências:

Gabriel Ivbijaro

Making Psychological And Mental Health First Aid For All A Global Reality

Dignity In Mental Health Is Within Our Reach

DIGNITY IN MENTAL HEALTH PSYCHOLOGICAL & MENTAL HEALTH FIRST AID FOR ALL (recomendações para o cuidado emergencial de sofrimento psicológico ou mental)

Out of the Shadows: Making Mental Health a Global Development Priority ( vídeo onde a OMS discute a questão 1:36 min)

psychological-first-aid-training-by-mhpss-24-638

 

Internet e Saúde: ciberespaSUS em foco

‪Ontem eu participei de uma aula aberta com o grupo de alunos do Curso de Especialização em Comunicação & Saúde do Icict/Fiocruz.

Bruna Castanheira, pesquisadora do Centro de Tecnologia e Sociedade, da Fundação Getúlio Vargas e eu fomos lá conversar sobre Saúde e Internet.

A Bruna é advogada estuda e milita pelo avanço do Marco Civil como uma  importante regulamentação para o uso da informação e comunicação nas redes.

Eu, psicóloga, levei minhas experiências com educação permanente e à distância em saúde, bem como o uso das redes sociais como um espaço para informar, comunicar e refletir sobre essas práticas com base nas experiências dos trabalhadores do SUS.

A fim de trazer experiências concretas sobre o assunto compartilhei uma apresentação feita sobre educação em rede para integração da atenção primária e saúde mental.

Além da revisão de literatura, na primeira parte da apresentação usei como exemplos de prática 3 atividades virtuais com designs diferentes: o Telessaude, E-learning sobre Grupos na Atenção Primária e a Rede Social Comunidade de Práticas.

Na segunda parte apresentei um levantamento dos artigos escritos nos últimos dois anos com a temática da aula. A apresentação e as referências estão à disposição no link: Saúde e Internet apresentação.

A conversa com o grupo multidisciplinar trouxe a tona pontos de discussão como: as bolhas que a internet cria, os conceitos de privacidade e acesso à internet, bem como discussões em torno das comunicações em saúde on-line e o impacto disso na construção de ideias e conceitos relacionados ao SUS e a relação equipes de saúde-usuários.

Esse encontro foi um convite do ICICT para a retomada de uma discussão realizada  durante a IV Mostra Nacional de Experiências em Saúde da Família. Naquele momento em 2013 estavam também a Rede HumanizaSUS, a Comunidade de Práticas e outros parceiros como grupo da Wikipedia Brazil, vários blogueiros do SUS e pesquisadores do assunto.

Retomar essa conversa com trabalhadores da comunicação em saúde, um pouco mais de dois anos depois, me fez pensar na importância da saúde pública seguir os passos do Marco Civil para puder colocar em discussão as normas da comunicação em saúde on-line.

Aspectos éticos, estruturais e institucionais da saúde nos espaços virtuais precisa avançar na reflexão dos seus processos, assim como criar normas claras que circunscrevam e fundamentem suas ações de modo pelo menos um pouco mais claro e estruturado.

Felizmente, ontem, percebi que essa árdua tarefa conta com profissionais e pesquisadores que parecem querer levar isso a frente.

O encontro me fez me sentir motivada! Quero mais…

Foto do post foi tirada durante a IV Mostra, falta muita gente ai dentro dela, mas foi a que eu achei. 🙂

Vídeo sobre Neutralidade na Internet: